quarta-feira, 16 de maio de 2012

Capítulo 1

1. Este é um romance de ficção, por que todo romance é uma ficção passada no real, por que a realidade em si é desprovida de romance, tendendo á resumir toda a complexidade de existir ao jugo do relógio e da capacidade de possuir, para uma história romântica é preciso uma dose aceitável e quem sabe cavalar de loucura, entregar-se ao equívoco óbvio, um romance só pode ser definitivamente vivido quando confessamo-nos sós diante o espelho enlouquecidos ao ponto de sentir uma lucidez que traduz o mundo.



É preciso abdicar de si e mergulhar no rio fundo e escuro que nossa mente forja ao explicar o enredor, na placidez assustadora da superfície rumo a estranheza do fundo e quem sabe afogar-se e quem sabe morrer-se tantas vezes quantas caibam na condição de sentir a formação do amor na sua forma mais, quem sabe simples, quem sabe labirinto.



Assim esse é um romance sobre apaixonar-se, sobre enlouquecer, Eros e Tanatos, sobre Phatos e Psiquê, sobre duvidar e crer, sobre racionalizar e sentir.



Tereza acordou atrasada e não tomou café em casa, passou na padaria, comprou créditos no celular, ligou pra o trabalho e contou uma mentira, notou que a saia que usava estava descosturada e pensou que queria viajar pra uma cachoeira, que queria ter sido aeromoça e em como ia conseguir aumentar o limite do cartão de crédito, subiu uma ladeira muito inclinada e chegou suada na porta do trabalho, lavou o rosto com sabonete de erva doce e pensou que queria ir pra uma cachoeira minutos antes de entregar-se ao mundo das planilhas.



Ele acordou sozinho, bateu uma punheta e adormeceu novamente, sonhou que estava no meio do pregão da bolsa de Nova Iorque de cueca e reclamava que seu celular não funcionava direito e que aquilo sim deveria ser uma preocupação capitalista, de repente estava numa duna com uma cabra que mastigava de boca aberta e olhava pra ele com olhar inquiridor, acordou, tomou um café e olhou as montanhas lá fora, não sabia quanto tempo estava ali, nem quanto tempo ainda suportaria ficar, sentiu falta do seu celular e da internet, terminou de tomar o café foi até o vaso e pegou uma berlota bem grande, fez um bisseda, bateu uma punheta e pintou um quadro igual ao que tinha pintado no dia anterior, sentou-se na varanda com o violão no colo e tocou uma música do thedoors, regou as plantas, alimentou os animais e deixou as coisas encaminhadas pro caseiro que ele sentia que estava pra chegar em algum daqueles dias que viriam, deitou-se e dormiu de roupa com medo de sonhar novamente que estava só de cueca tinha medo de altura e chamava-se Bianor era escorpiano.



Ela tomava vinho caro e gastava boa parte do salário com salmão e especiarias, tinha um celular do tipo velho e passava a maior parte do tempo em pesquisas rápidas de internet, sobre dados estatísticos calculados por outras pessoas, relatórios, distraía-se com poemas e imaginava uma historia erótica que começava numa cachoeira, que obsessão, aquela de tomar um banho de cachoeira, foi no banheiro, lavou as mãos, fumou um cigarro, tomou um café, tomou outro café, voltou pro computador, digitou cachoeira e colocou o fundo de tela do computador de foto de cachoeira, recebeu um relatório novo da ONU e passou a tarde adequando e atualizando o próprio relatório, escreveu um panfleto, scaneou umas fotos e imprimiu a foto da cachoeira. Tomou um café e fez um coração no canto do caderno. Era tão vazio.



Ele não queria levantar, ele queria ter um sonho, foi olhar os cogumelos, estavam bons, ele tomou um chá, sonhou que era uma lagarta, comia folhas pisadas e depois virava uma borboleta purpura que sobrevoava muito alta e muito lenta , ele era leve e a planice era calma, de repente começou a cair de toda aquela altura pesado como uma bola de chumbo, rolou por um penhasco e foi na frente de um homem que contava grãos, havia-se transformado num asno e tentava em vão comunicar-se com o homem para saber por que ele contava um por um os grãos de um imenso alguidar, quando tentou afastar-se sentiu que estava preso por uma corda que só o deixava ir até um ponto do caminho, depois do qual foi puxado bruscamente pelo homem que contava e tomou uma chicotada no lombo. Acordou, escreveu um roteiro, arrumou as malas e voltou pra cidade, quando ia saindo encontrou o caseiro, faziam exatamente 111 dias que ele estava lá.


Este é um romance de ficção, por que todo romance é uma ficção que deve ser reconstruída cotidianamente.

2.



Ela era psicóloga numa ong que assistia estrangeiros que queriam voltar para seu país, recém formada, ia fazer 30, era um trabalho bom, um bom dinheiro, utilidade social, tinha amigos legais, era viciada em cigarro, vinho e internet, morava sozinha com uma gata castrada. Frequentava festinhas em apartamentos de intelectuais, bares barulhentos e aniversários de solteiros, protestava na internet, trepava com estranhos e só visitava a família em caso de eventos, nunca tinha saído do país, era poliglota, ia sozinha no cinema e chorava lendo história de vampiros e curava uma ressaca moral com uma ressaca moral maior, nunca teve namorado, mas fantasiava romances, colecionava decepções e passava a maior parte do tempo preocupada com algum post-it que ela esqueceu de checar e resolver.


Adorava tatuagens, mas morria de medo de agulhas, prometia-se tomar coragem, preparava questionários e cruzava resultados, pensava em embalagens de produtos e em como torna-los atraentes, gostava de assistir filmes eróticos e ouvir musica sertaneja secretamente.



Bianor tinha 48, tinha uma agência de propaganda que nos ultimos meses tinha deixado sob o cuidado do filho mais velho de 25 anos, era divorciado já fazia uma década, mas sua ex-mulher ainda falava com ele como se estivesse do seu lado da cama, o fim do casamento e o próprio casamento tinham sido tão traumáticos que estava sozinho e feliz desde então, considerava-se celibatário, era baterista de uma banda de garagem com amigos de muitos anos, os mesmos com quem frequentava prostíbulos para aliviar-se do seu sempre disposto desejo, com o tempo cansou das prostitutas e do rock de garagem, cansou da agência, quando anunciou que ia tirar férias recebeu duas notícias impressionantes, a de que tinham conseguido uma conta milionária com uma banda de pagode nova que ia lançar um trabalho novo e a outra ainda mais assustadora, um tio distante tinha morrido e lhe deixado uma pequena fortuna e uma chácara na serra.


Decretou férias imediatas, fez três dos melhores da publicidade pedirem demissão, para irem trabalhar com ele, deixou o filho assessorado pelas duas secretárias, investiu parte da herança em ações de empresas de celular, pegou a chave do sítio e pediu ao caseiro que só voltasse ali novamente em 111 dias, ele não tinha uma explicação pra aquela atitude ou para aquela quantidade de dias, achava bonito ser místico e queria muito algo que não tinha há muito tempo solidão silenciosa.





3.



Você pode planejar ter um romance mas isso jamais vai querer dizer que você irá vive-lo, pra viver um romance é preciso desistir, desistir do que havia e permitir-se recomeçar de um ponto absurdo.



Toda paixão é absurda, apaixonar-se é adoecer é uma febre terçã, uma insana consciência de si e uma explicação incompleta e suficiente sobre o mundo.



É um universo complexo de complexos e soluções, de tardes e inconsequências, começa em si, em permitir-se.



Era domingo e ela assistia filmes eróticos, fumava haxixe no narguilé , corrigia textos, comia lasanha com vinho tinto e decorava versos, conversava com a gata Dinorá e recebia alguma visita mais bem vinda para a melancolia dos domingos, o filme ficava pausado na televisão, domingo sem visitas, alugou um filme que era numa cachoeira, narguilé, papel higiênico, ky, Horácio, café amargo e chocolate. Terminava a noite com um relatório e um banho longo, sobrancelha, suvaco, panturrilha. Arrumava os arquivos, atualizava os backups e dormia depois do Fantástico.



Era domingo e ele chegou ao anoitecer, o apartamento estava vazio mas com tudo pronto para sua chegada, como tinha pedido, tomou um demorado banho de banheira e lembrou que tinha esquecido as plantas no carro, teve um pequeno medo e telefonou pra casa da Ex-mulher.

- Alô .

- Mariza?

-Bianor?

-Sou eu.

-Quer falar com Paulo Otávio?

-Também. Como vão as coisas?

-

Você sabe o que eu acho sobre tudo isso, acho que você é um irresponsável, que foge dos seus problemas e larga tudo aqui na mão do seu filho, qual o seu problema Bianor? Nem vejo mais o meu filho, o telefone toca o dia todo ele nem aparece mais aqui, já soube que ele tem um apartamento e fica lá resolvendo problemas com esse pessoal dessa banda, um monte de gente, aquelas mulheres...

- Cadê o Tavinho?

-

Você não ouviu uma palavra do que eu disse né, ele não está, ele nunca está, eu não sei, ele vive pra resolver os problemas que você deixou aqui pra ir brincar de monge, você vai aumentar minha pensão né? Precisamos mandar mais dinheiro pra Maria Clara, as coisas estão caras lá na França, ela quer vir pra cá, visitar você.

- Vou te mandar um cheque. Tchau.

-Bianor...

Click.

Ligou pro celular do filho.

- Pai!

-Tavinho! Como vão as coisas?

- Tudo muito bem, muitas coisas aconteceram, não posso falar muito com você agora, precisamos nos ver, você está no apartamento?

-

Sim , mas vamos nos ver amanhã, venha almoçar aqui, quero gravar um filme.

- Um Filme? Que maravilha! É sobre o que? Temos muitos assuntos pra resolver, estou com a chaves daquela Chácara e tem uma caixa também, Olha a gente se fala melhor amanhã, tá tudo bem né?

- Tudo bem, senti sua falta.

- Eu também. Nos vemos.

Ela sonhou que era uma odalisca á venda num mercado árabe, todos falavam francês e um Sheyk de olhos claros lhe comprava numa promoção de doze por meia dúzia.

Ela era amarrada num camelo e tinha que caminhar descalça pelas areias escaldantes do deserto, encontrava um oásis, havia uma lagoa, onde ela pulou e tudo se transformou num pântano com areias movediças, onde debateu-se até despertar.

Acordou muito cedo, fez um café, torrou pães dormidos, tomou uma taça de vinho, fumou dois cigarros, botou um vestido novo e foi de carro pro trabalho.

Recebia as correspondências de pessoas que queriam voltar para seus países mas estavam impossibilitadas por questões políticas ou diplomáticas e também de famílias de brasileiros que tinham parentes desaparecidos ou presos em outros países que precisavam de informações ou estavam em trâmites políticos para voltar para o brasil, ela recebia pessoas que seriam assistidas pelo programa, encaminhadas para consulados, advogados, assistentes sociais, recebia as cartas, escolhia alguns perfis, fazia entrevistas, gravava tudo, fazia os encaminhamentos, tomava algumas providências e depois não tinha mais notícias sobre os assistidos, as vezes em alguns casos procurava saber, mas como curiosidade do que com efetiva preocupação. Naquele dia ia receber um mãe cuja a filha estava presa por tráfico internacional em Portugal, tinha sido transferida de presídio e ela não sabia onde a filha estava. Tomou um café, checou a pilha do gravador, e ficou transcrevendo entrevistas enquanto esperava a mulher chegar, recebeu um telefonema de um cara que tinha conhecido na semana passada convidando pra tomar um vinho e ir num show, ela aceitou e continuou transcrevendo a fita pensando em que vestido ia usar e que queria comprar mais camisinha com gosto de hortelã, excelente para mulheres que fumam durante o boquete.


.

4. Ele conheceu Mariza quando tinha 21 ainda estava na faculdade, foi numa festa na casa dela, ele foi com um primo que era seu colega na agência onde ele estagiava, chegaram cedo, ele gostou do jeito dela de preparar as coisas e das mechas do cabelo que lhe caiam nos olhos, soube que ela estudava culinária e ficou deliciado com cada um dos pequenos canapés que ia colocando na mesa e dando pra eles provarem, ele contou sobre sua origem Italiana e ela fez um breve resumo da historia da culinária daquele país e lhe disse que fazia o melhor La Putanesca do mundo.

A casa dos pais de Mariza era grande e eles estavam viajando, ele sempre pensou que se por acaso tivesse conhecido a mãe dela naquela ocasião jamais teria se casado, pensava mas nunca falou por que ela tinha lhe dado filhos e isso fez valer a pena os doze anos de casamento conturbado.

No fim da festa ele estava um pouco bêbado depois de ter jogado palitinho com uns rapazes que tomavam tequila, dormiu no sofá e foi acordado por Mariza que lhe convidou pra ir dormir na sua cama – Só dormir! – disse ela com um risinho.

Ele foi ela lhe deu uma toalha, ele não queria tomar banho, estava feliz bêbado, ela insistiu, ele pensou em bater uma punheta, desistiu, anos e anos lamentou-se dessa decisão, quando saiu ela não estava no quarto ele deitou na cama macia dela e depois de um tempo um cheiro delicioso invadiu o ambiente e ele sentiu ela se deitar do lado dele, ela veio devagar se encaixou por trás, cheirou o cabelo dele e disse que gostava muito daquele shampoo, se beijaram, treparam e provavelmente nunca mais se veriam se ela não tivesse engravidado.

Dois meses depois o primo de Mariza trouxe um recado ela precisava ve-lo e era urgente, ele imaginou urgência sexual e naquela mesma tarde foi visita-la, ela o recebeu no quarto, chorando disse que estava grávida e que não ia tirar o bebê, ele ia perguntar se ela tinha certeza que era dele, mas achou melhor não ofende-la, acabaram trepando de novo e se pegaram fazendo planos pra criança, um casamento as pressas, muita confusão familiar, o entorno tumultuado acabou lhes unido.

Dos pais dela ganharam uma casa e seu pai lhe ajudou a montar sua própria Agência, ele se esforçou mais e terminou a faculdade quando Tavinho completou 10 meses, trabalhava duro, queria vida boa para o filho e não queria que Mariza sentisse falta dos confortos da casa dos pais, o Publicitário com quem havia estagiado lhe passou algumas contas e em pouco tempo ele foi reconhecido no mercado pelo preço baixo e a ótima qualidade.

Junto com a mulher decidiu que ele provia e ela cuidava da casa e da criança no começo ela insistia em trabalhar, até que engravidou de novo da caçula Maria Clara. Ele precisava trabalhar mais. Ela desistiu de ter uma vida extra lar.

Ele gostava mais de Tavinho, não dizia, mas gostava, talvez por que depois do nascimento da filha o casamento começou a se configurar no trauma que viria a ser, talvez por que a filha tinha o mesmo tom de voz e o nariz irritante da mãe ou talvez por que ela nunca ligou muito mesmo pra ele e assim que fez 18 anos foi pra França e praticamente toda correspondência entre eles era bancária.

Depois de Clarinha, Mariza engordou, tornou-se consumidora compulsiva e desenvolveu um ciúme doentio que foi o que realmente pões fim ao casamento, não sem que tivessem se acumulados cartões de crédito estourados, telefonemas transtornados, interrogatórios noturnos, brochadas sucessivas e a cereja no bolo que foi quando ele descobriu muito por acaso que ele próprio estava pagando o detetive particular que estava lhe seguindo, em vão, ele não tinha tempo para traições. Ele não tinha tempo pra nada.

Saiu mais cedo do trabalho a mulher não foi, pegou a pasta dela e foi pra casa se arrumar, estava cansada dos caras, nem fazia mais a catalogação, gostava mais de nerds em geral, homens mais velhos motos e conversíveis. Era como um esporte um triller numa aventura sem data, permanecia adolescendo sem muita vontade de dividir-se, tinha casos, nenhuma posse, evitava e conseguia, tinha assim, trabalho, amigos, sexo e poucos problemas só lhe faltava uma cachoeira.

Escolheu o vestido chinês, ainda não tinha usado, era um presente que chegou de um brasileiro que tinha conseguido mudar-se pra perto da avó, era um vestido preto, ainda estava um pouco apertado, ela continuava de dieta por causa daquele vestido, acabou achando que o cara não merecia o figurino e repetiu a combinação jeans e camiseta do primeiro dia. Ela não lembrava muito bem da noite que tinha conhecido, Rui, o nome dele, foi muito simpático ela estava bêbada eles riram e fumaram baseado, ele pediu seu telefone e lhe deixou em casa sem tentar nada. E no outro dia ligou pra saber se ela estava bem, ela gostou do tom da voz dele, era educado e gentil. Se encontraram na porta de um bar de motoqueiros, ela achou aquilo muito sexy, devia ter colocado a jaqueta de couro.

Ele se atrasou um pouco e chegou com um cara muito bonito, Tereza pensou que preferia o amigo e levou algum tempo pra perceber que Rui era gay e que Kevin era o namorado dele, eram discretos, ela diria até enrustidos, o namorado dele era o baterista da banda que tocava naquele bar as segundas-feiras, foi uma noite agradável, Mariza relaxou não precisava fazer a linha sexy, dançou muito, bebeu muito vinho, não pegou ninguém, aceitou uns tecos que Rui lhe ofereceu, voltou pra casa feliz, acordou de ressaca, chegou atrasada no trabalho, A polícia levou pra lá dois coreanos que tinham sido assaltados assim que chegaram ao Brasil e estavam completamente desesperados pois estavam sem dinheiro, documentos, ou as mercadorias que tinham trazido para vender e não falavam absolutamente nem uma palavra de português, depois de uma difícil conversa em Inglês ela conseguiu localizar um parente deles em uma cidade do interior, fez os encaminhamentos, providenciou as passagens e só de tarde conseguiu despachá-los definitivamente, dia exaustivo, olhou as marcações e viu que a mãe da traficante tinha marcado uma outra data. Ficou mais uma hora depois do expediente, tabulando questionários, chegou em casa cansada, deu duas pipadas grandes no narguilé e dormiu.

Sonhou que estava num aeroporto e tinha medo de todo mundo, tentava andar escondida, tinha uma caixa pequena na mão que era o motivo de seu medo, estava lacrada e ela não podia abrir, viu que dois homens de preto lhe sorriam sarcásticos tinham uma caixa igual a sua só que três vezes maior, quando ela pensou em segui-los foi segurada pelo braço, despida, revistada e colocada numa jaula junto com três poodles que latiram até que ela acordasse.

http://www.youtube.com/watch?v=NCHzJtql6uU

Este é um romance de ficção, por que todo romance é uma ficção, que começa com uma fantasia, com um certo abandono de si, é preciso dar lugar ao outro, é necessário criar um enredo, uma paixão é um ensaio para o amor, pode ser um espetáculo, pode ser um fiasco, este é um romance de ficção, por que toda paixão é em principio uma sweet fantasia.

Gostava de Batom vermelho, rock pesado, tomar todas e aceitava bem novidades e sexo eventual, saiu de casa cedo, pais ocupados, irmãos demandantes, cansou cedo da familia, arrumou emprego numa lanchonete, morava numa kit num bairro pobre, não tinha fogão , nem geladeira, nem nada além de um filtro, um sofá cama, e dois cinzeiros, depois comprou uma cafeteira um jogo de xícaras e roubou uma colherinha de um restaurante que foi com o primeiro cara que comeu na kit, era um cabeludo meio sujo que tocava baixo numa banda de hardcore, sempre usava camisinha, tinha pânico de gravidez e doença, chupava de camisinha e acreditava que isso era um forte elemento de assustar os homens - Ninguem Chupa de camisinha - diziam muitos caras. - Não sou ninguém ela respondia, sem acreditar muito no que estava dizendo

- Pra que é esse plástico?

- Boquete.

- Voce quer que eu lamba esse plástico, diziam diante do papel filme.

- é mais seguro.

- Não tenho nada.

- Tem um atestado médico

- Isso não é muito paranóide?

- Estudo psicologia, isso é orientação para sexo seguro

- Cadê minha calça?

E assim muitas e muitas vezes, queria ser promíscua e ficar tranquila. Dificil, quando saiu de casa tinha 24 estava terminando o curso, tinha vacilado muito e teve sorte, desenvolveu a paranóia. Tinha alguns amigos que escreviam panfletos e organizavam eventos pela abertura dos arquivos da ditadura, contra o Exilio e coisas assim, vivia prometendo que ia guardar dinheiro pra ir pra algum país, queria ir pro japão, por que se era pra ir longe queria ir bem longe mesmo, gastava tudo.

Tinha dois melhores amigos Artemis e Melinda, um era uma bicha que fazia teatro e encarava papeis coadjuvantes em filmes de segunda, vivia sem dinheiro, pedia dinheiro emprestado e nunca pagava e no fim do mês quase sempre se mudava pra casa dela pra compartilharem a pobreza, as vezes ele ganhava um bom cachê e faziam uma festinha no melhor estilo Sex, drougs & Rock andRoll.

Ela sonhava uma paixão mas era um sonho que estava do lado de ter uma BMW conversível, se rolasse era ótimo, mas não vislumbrava essa possibilidade no plano das coisas imediatas, não tinha tempo, não tinha homens disponíveis nem aptos para paixão x procriação x final feliz. Fumava um, tomava um café, tocava uma siris e esquecia o assunto pensando em algum cara que ainda estava por vir.

Quando ele decidiu que ia se isolar avisou todo mundo, deixou tudo encaminhado, não levaria celular, não usaria a internet, não receberia visitas e não ia comer carne nem consumir nada químico, colocou uns vasos no carro, fez duas duzias de telefonemas e foi, demorou um tempo pra tomar aquela decisão, foi quando descobriu que nunca tinha vivido pra si, e que todo seu objetivo era expresso pelo seu extrato bancário.


Isso não era mais um problema e o mundo ficou sem um sentido, já tinha alguns anos que fazia ioga, começou por causa de uma dor nas costas e continuou por que tinha um professor que era um mestre zen e que lhe fez descobir o universo dos enteógenos, começou tomando uns chás, teve umas viajens mas elas não significavam nada, era como ver um filme que ele não conseguia entender o final. O mestre disse que ele precisava aprofundar-se em si mesmo. ele queria tentar.

Do ponto de vista da paixão nunca experimentou o arroubo, casou cedo, trabalhava duro, tentava acompanhar os filhos e fazer as vontades da mulher, deu certo com Tavinho, falhou com Maria Clara, a vida era assim tentativa e erro dizia pra si mesmo um tanto resignado. Um cansaço existencial tinha lhe consumido ao ponto de ele tirar as primeiras férias de verdade, Não viajava a passeio, só por negócios e família, tinha pessimas recordações das viajens com Mariza, problemas com excesso de bagagem e com excessos, terminou o casamento em um piscar de olhos, deixou o recibo do detetive com um bilhete, não estava procurando mulher nenhuma, agora estou.


Adeus, era pra ser simples não foi, Mariza teve ataques histéricos memoráveis, nos mais diversos lugares, lhe seguia, telefonava obsessivamente, ameaçava se matar, jogava os filhos contra ele, fazia exigências inacreditáveis, fez do divórcio um processo lento, doloroso e traumático, queria deixa-lo pobre, queria ele de volta, queria vingança, ele só queria aprender a tocar bateria e tocar na garagem dos amigos do tempo da faculdade. Quando tudo acabou deu uma grande festa.

E entregou-se a bateria e a reconquista do patrimônio, trouxe mais pra perto de si o filho, tornou ainda mais distante Mariza que acabou arrumando um novo namorado e lhe deixando em paz. Ele queria silêncio, queria aprofundar-se em si, ele queria uma coisa que nunca tinha experimentado. Ele queria ter um sonho.

5.[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=HvCdV0ckqVE]

Este é um romance de ficção, que trata da paixão como um caminho para o amor, nunca um caminho reto, mas um labirinto onde podemos nos perder, perder a paixão e a chance de viver o amor, mas sempre um caminho que nos conduz pra algum lugar, muitas entradas, muitas saídas, Nem todo labirinto é metáfora, mas todo romance é por natureza uma ficção, a ficção do romance é, por sua vez, a realidade do desejo.

Melinda era a melhor amiga de Tereza, era da área da administração e fazia análises de faturamento para uma empresa de cosméticos, não gostava muito do trabalho em si, mas adorava os brindes, Tereza além de amiga era sua PersonalTerapy. Era adepta do álcool como um agente catalizador e exorcizador de sentimentos, vivia pequenos e breves romances sem romantizá-los, era classificada no seu grupo como desorientada sexual desde que viveu uma tórrida paixão com uma travesti argentina chamada Barbarella.

Tereza passou a semana inteira sonhando com uma festa, literalmente, sonhava que estava numa garagem cheia de carros e que acontecia um show onde ela não conseguia ver o rosto das pessoas que tocavam na banda e ela ouvia uma musica que ao acordar não decorava, era como uma recordação de alguma coisa pela qual não tinha passado, ligou pra Rui e perguntou se ele poderia passar na sua casa, queria dizer pra ele que não se importava de ele ser gay, que tinha amigos gays e principalmente queria saber por que ele pediu o telefone dela se não gostava de mulher. Marcaram de se encontrar no fim da noite ele levaria um vinho e também Kevin, ela pensou em dizer venha sozinho, mas depois percebeu que aquilo não tinha nada haver e desistiu.

Todos os amigos deram sugestões de como deveria ser sua viajem, vai pra Amsterdã, Paris, Nova Iorque, cara pega sua grana e vai pro Caribe tomar Margaritas e pegar umas nativas por que você não vai pro Havaí e assim todos queriam projetar na sua viajem seu próprio sonho, sonhos alheios ignorados, ele não queria nada daquela confusão de aeroporto, malas, telefonemas internacionais, reservas vistos, passaportes, nada disso, queria pegar o carro e dar inicio a sua viajem que era íntima, ele queria encontrar alguém há tempos abandonado um alguém que estava em algum lugar dentro dele.

Cuidado avisou o mestre, são muito poderosos esses enteógenos, disse enquanto lhe entregava uma caixa com algumas plantas e um pequeno envelope com recomendações para o preparo e o ritual, foram muitas conversas, muitas recomendações, o mestre queria que ele entendesse que aquilo não se fazia sozinho com risco de morte, que ele fosse lenta e gradualmente sentindo os efeitos de cada coisa, que se concentrasse e tentasse escrever assim que possível sua experiência, ele levou uma filmadora, queria registrar sua viagem em todos os aspectos.

Ao abrir o envelope ele constatou que havia uma ordem e extensas e repetidas recomendações, pretendia seguir o seu maior medo não era morrer que o mestre disse que era muito raro, mas do de não conseguir retornar dessa viajem o que ele não entendeu direito mas soava como um tipo de enlouquecimento que lhe assustava bastante.

Ela preparou o Narguilé com uma mistura de ganja e fumo de menta, arrumou a sala colocou o um CD do Nirvana, acendeu um fino e fechou os olhos, ela lembrava da festa do sonho, tentava lembrar da musica insistente que tocava e não conseguia, tinha certeza que era alguma musica que já tinha ouvido, a repetição do sonho lhe deixou um pouco angustiada, releu Freud e folheou um Lacan, nada muito consistente sobre sonhar com festas.

Rui e Kevin chegaram com vinho e algumas frutas secas, eram tão agradáveis, na segunda garrafa eles se soltaram mais trocaram algumas caricias breves e olhares cúmplices, ela também relaxou, perguntou como eles haviam se conhecido e aproveitou também e emendou na conversa a pergunta de por que Rui tinha lhe dado carona e pedido seu telefone.

Gostei de você, tenho poucas amigas, me diverti muito com você bêbada, sua energia, sei lá, tive vontade de ser seu amigo, algo cósmico, disse dando uma profunda baforada no narguilé.

Eles riram, Kevin era mais tipo bofe, tinha uma barba clara e bem aparada,vestia-se como um cantor de rock dos anos 80 calça jeans camiseta preta , jaqueta de couro, Spike, falava pouco, passou a maior parte do tempo mexendo nos CD´s e fazendo descrições sobre turnês, edições, trocas de formações e coisas afins, Tereza adorou que ele adorou seus CD´s e Rui adorou o narguilê e ficou muito impressionado com a quantidade de brindes de loja de cosméticos que estavam no banheiro, ela falou de Melinda e prometeu que ia lhes apresentar, o telefone tocou era Melinda, queria pó, precisava do telefone de um diller, Tereza disse que podia dar alguns números, mas que estava um pouco tarde e talvez eles não atendessem, também disse que ela não deveria cheirar no meio da semana, Rui disse que também queria dar uns tecos, mas os dillers não atenderam e eles acabaram aceitando que era uma quinta e melhor deixar pro dia seguinte.

Ele queria ter um sonho, um sonho pra ir atrás de alguma coisa, queria descobrir um segredo do universo, qualquer coisa que melhorasse aquele vazio que tinha dentro dele fazia um tempo, mas precisamente desde que constatou que os filhos estavam crescidos e aos poucos começavam a ter uma vida na qual ele era um almoço de feriado, colocar Tavinho no seu lugar era mais uma maneira de prende-lo que realmente uma necessidade, tendo em vista a extrema competência das duas secretárias que deveriam estar arrancando o couro do filho pra que as coisas não saíssem do lugar na sua ausência.

Olhou as plantas eram 5 cada uma deveria lhe proporcionar um tipo de experiência, a ultima eram cogumelos que ainda não tinham nascido, ele deveria cuidar deles para que brotassem enquanto estava ali, sua primeira experiência seria a desintoxicação, uma coisa que lhe causaria suores, dores, diarréias e talvez ataques fóbicos dizia a carta do mestre.

Eram folhas espessas em forma de coração, um pequeno arbusto que ele deveria mastigar até que sua língua se amortecesse e então esperar que tudo acontecesse, ele foi devagar mastigou algumas folhinhas teve apenas um pequeno mal estar e depois completou a receita.

Sentou-se do lado de fora e começou a ter calafrios, depois sua vista escureceu e em alguns minutos ele tinha feito uma trilha de vômito e merda da varanda até o banheiro onde passou umas hora e meia intermináveis entre suores, engulhos e contrações abdominais.

Tomou um banho e adormeceu, sonhou que estava no vomitando uma por uma as folhas que tinha mastigado enquanto uma vaca azul ruminava olhando-o de modo condenatório, acordou e lembrou que tinha esquecido de gravar a experiência, foi pro gravador e descreveu suas sensações, pensou que queria uma coca-cola, fumou um baseado, tomou um café e dormiu na rede da varanda tentando reconhecer constelações na noite clara.

Esse é um romance lisérgico de ficção por que todo romance e toda lisérgica são ficções que o corpo abraça.

6.Ela não queria sair de casa, queria ler Clarisse, deitada no puf, com o narguilé, queria bater papo na internet e conhecer alguém que ela podia dispensar com um único click, mas Melinda ligou dizendo que estava chegando e Artemis também e ela prevendo a festinha acabou tomando indo se arrumar pra alguma possível festinha, ligou pra Rui que disse que Kevin estava se sentindo mal e eles não iriam.

Abriu um vinho, e esperou, Melinda chegou com um cara bonito e desconhecido que tinha muitos saquinhos de pó e que estava visivelmente travado e não parava de falar

-Muito bonito seu apartamento, poxa quantos CD´s legais você tem, gosta de rock, eu tentei tocar saxofone uma vez não deu certo, mas gosto muito de música, onde fica o banheiro, você tem um prato?

Na cozinha com Melinda:

-Quem -e´- esse- cara?

-Um diller novo, gato né? Vou comer.

- Cheirado desse jeito você vai tentar comer só pra ter mais uma historinha de brochada pra contar, conheceu ele onde?

- Sabe o Bambam? Rodou, foi preso e tal e a galera agora recomendou esse ai, ele foi lá em casa a gente bateu um papo rolou um clima e ele disse que se eu quisesse cheirava com ele de graça, perguntou se eu sabia de alguma festinha, ai cá estamos.

- Não entendi bem, por que você acha que aqui está acontecendo uma festinha, ai Mel, eu queria ficar de boa, ler um livro fumar um beque, agora to aqui com esse prato na mão e um cara ligado no 220 passeando pela minha sala, e se esse cara for violento, ou louco, sei lá...

-R-e-l-a-x-a... dá aqui esse pratinho, bota essas cervejinhas ai pra gelar, vai dar tudo certo, Artemis tá chegando.

Ela ficou um tempo no quarto fugindo da session, além do mais não queria cheirar, tava cansada, queria sua paz, não tinha, paciência, ia entrar no clima, foi pra cozinha e pode ver Melinda se agarrando com o diller na sala, pegou uma cerveja, cortou um canudinho escolheu um cd do Iggy e ficou dançando na frente do espelho do corredor de olhos fechados esperando o interfone tocar.

Artemis chegou dizendo que nem morta ia ficar trancada naquela casa numa sexta de noite, que ele sabia de uma festa muito legal e que eles iam juntos.

Melinda e o cara levantaram do puf e foram pro banheiro, Artemis fez sinal pra Tereza querendo saber quem era o bofe, ela fez sinal de que era qualquer um estranho, riram, cheiraram e ficaram tomando cerveja e falando mal de Melinda enquanto ela estava no banheiro.

Quando eles saíram , estavam estranhos, o cara falou que tinha que ir, melinda não disse nada, Artemis tentou ser gentil , com um tá cedo e Tereza foi caminhando na direção da porta, ele saiu sem muitas cerimônias e um coro de – Broxa!- foi cantado aos risos pelos três super acostumados com a cena.

- E ai? Perguntou a bicha.

-Maludo, chupa bem, pegada boa mas foi impossível meter a rola meia bomba dentro da camisinha, ai tem que ter aquela conversa:

-Não é nada demais disse Tereza imitando Melinda

-Podemos tentar depois, falou Artemis no mesmo tom.

- Isso nunca aconteceu antes, disse Melinda olhando pra um pinto imaginário broxado

-Engraçado - riu Tereza- comigo sempre acontece.

-Pode me chamar de para-raio de broxa disse Melinda com um ar orgulhoso, todos riram

-O pó acabou? Perguntou triste Artemis.

-Nããããão. Tinha tantos que acho que ele nem vai reparar que peguei esses três aqui.

-Ai meu narizzzzzzzzz!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

-Gente, não estraga minha noite, vamos pra boate.

- Tô pronta disse Melinda!

-Eu vou aproveitar e broxar também, falou Tereza mergulhando no puf, amanhã quem sabe, quero ficar aqui, internet, baseado, Clarisse.

-Deixa essa vaca ai, disse Melinda, vem viadinho, que a Mel vai te levar pra passear.

Quando eles saíram Tereza entrou no bate-papo, tomou mais umas cervejas, cheirou o resto do pó que estava no prato não encontrou ninguém interessante, olhou um pouco as vidas alheias no Orkut , assistiu uns files pornôs, gozou e dormiu.

Ela sonhou que estavas num caminho deserto, caminhava no nada e tinham apenas uns arbustos com pequenas flores amarelas nas margens ela ouvia uma música, a mesma música da garagem, caminhava na direção do som depois olhava por uma janela e estava num lugar muito alto e pensava se poderia voar, ensaiava e vendo que podia, saia voando pela janela e encontrava um lindo jardim e uma porta fechada, ela dava a volta pela casa e constatava que o som saia lá de dentro, ai de repente o chão cedia e ela começava a cair, acordou com a vertigem. Tomou um banho, fez um café e resolveu fazer um café. Eram quatro da manhã, não dormiu mais.

7.Quando Tavinho chegou cheio de novidades sobre a banda e as coisas que tinha pra fazer, o pai não lhe deu muita atenção, queria gravar um filme , queria filmar um triller romântico sobre um cara solitário. Conversavam tomando um licor na sacada do apartamento antes do almoço ser servido, Tavinho lhe entregou uma caixa e as chaves do imóvel que tinha sido herdado.

- Parece que está abandonado faz um tempo, mas é um lugar grande pela descrição dos documentos, se quiser vender podemos conseguir um excelente preço, já contatei umas imobiliárias. E tem essa caixa aqui, com muitos papéis e anotações, não tive tempo de ler, são muitas notas, parece que um diário de viajem, não sei por que alguém sem nenhuma proximidade ia lhe deixar coisas tão íntimas, se descobrir me avise.

- Vou ver com calma, mas por enquanto quero pensar no filme, talvez possa fazer umas locações lá, vou visitar esse lugar, preciso ver umas pessoas, encontrar uns atores, locar equipamentos...

- Pai, temos muitas coisas pra resolver, entrevistas, shows, peças para o Cd, o DVD, todas essas coisas, não sei se é uma boa idéia, ainda tem as outras contas, estamos muito ocupados agora, não é um bom momento.

- As coisas tem andado bem sem mim, e assim vão continuar, quero gravar um flme e vou fazer isso, independente da agência, aliás chamei você aqui pra dizer que não vou voltar , pelo menos não por enquanto, preciso de mais tempo

- Vai se isolar de novo?

- Não muito pelo contrário, vou procurar pessoas que queiram fazer o filme comigo, é sério Tavinho preciso filmar esse roteiro.

- Olha Pai, faça como achar melhor, as coisas estão caminhando Sara e Soraia ligam pra mim o tempo todo, estou super ocupado resolvendo tudo, tenho acompanhado a banda de perto, tá tudo indo bem, se você não quer voltar eu entendo, mas realmente não poderei lhe ajudar com essa coisa do filme.

- Não será um problema, talvez eu precise de uma das secretárias, mas tentarei resolver tudo sem criar nenhum problema, mas me prometa que não vai dizer nada pra sua mãe, não quero irritações extras.

- Deixa comigo, se for precisar de alguma coisa da agência fala com antecedência tá! As coisas lá estão super tumultuadas, encaminhadas, mas tumultuadas.

A empregada avisou que a comida estava na mesa, eles comeram e Tavinho estava tão excitado com o mundo do show biz e todas as coisas Vips que nem deixou o pai contar sua própria experiência ou falar do filme, Lauro não se incomodou, ia com a mente longe ele teve um sonho, ele tinha um sonho.

Depois do almoço Tavinho foi embora e Lauro pegou sua agenda, ia começar voltando a tocar bateria, ligou pra Tiago o vocalista da Las cucarachas, sua banda e descobriu que eles estavam com uma formação nova e tocando num bar de motocas nas segundas, foi convidado pra ir lá e quem sabe revezar com o novo baterista.

Ele ia mexer na caixa, mas o telefone tocou, era Soraia a secretária mais velha estava estressadíssima, queria vê-lo, tinha coisas pra resolver, e pediu que ele fosse até a agência.

Ele não sabia muito bem desobedecê-la e foi.

Ele foi na agência, encontrou as duas secretárias irritadíssimas.

- Como assim você não vai voltar? Disse Soraia

-Precisamos de você! – Sara acendendo um cigarro

- Eu vou fazer um filme, tenho outros planos, disse tentando abraça-las

- Precisamos de você!Seu filho é muito jovem não pode deixar tudo na mão dele

-Mas não está tudo bem?

-Está mas precisamos de você, dizia Sara tragando fundo.

O telefone tocou, era Tiago chamando pra uma festa onde ele poderia reencontrar o povo da banda, ele ficou animado, queria sair, queria ver pessoas, ouvir música, aceitou o convite, fugiu das duas e foi pra casa se arrumar. Fechou uns baseados, colocou uma camisa que tinha desde a adolescência uma calça surrada e pegou um taxi, ia beber e não queria correr o risco de um acidente justo agora que tinha um sonho.

Este é um romance de ficção, e pode-se dizer que é uma novela, não sei muito bem o que caracteriza um romance como uma novela, mas acredito que é o fato de que pouco a pouco as personagens vão formando uma complexa teia entre elas, do mesmo jeito a paixão não tem regras, ela nos acomete, é um tipo de assalto é perigoso reagir e quase sempre mais vale entregar o que se tem, que viver a vida morta dos sem-paixão, esse é um romance de ficção, baseado não em fatos reais mas na semelhança com a realidade que compõe os romances, as paixões e as ficções.

Pois Melinda e Artemis estavam na mesma festa que Bianor, a banda do namorado de Rui era a mesma banda de nosso protagonista e mesmo que os até o momento nenhum deles se conhecessem Bianor foi parar na mesma roda que os dois, por que Melinda estava flertando com Tiago, por que eles estavam cheirando no banheiro, Melinda era mais bonita drogada, Lauro achou ela interessante, poderia ter rolado se ele estivesse procurando sexo fácil, como ela estava e insinuava.

- Você é um cara muito sexy

-hahahahahahah, eu deveria dizer isso não?

-Não precisa, deixa que eu faço as honras, dizia, passando a mão na coxa dele

Ele colocou a mão na mão dela e tirou.

-Acho que você cheirou bastante hoje.

-Você é careta?

-Não, longe disso, só estou distante do pó, sou publicitário o pó pra mim é um recurso estritamente profissional. Riram, trocaram telefones, quase se beijam, mas ele evitou, fugiu, tinha se tornado um tímido e mais do que isso, ele queria outra coisa.

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Melinda queria, ela não desistiria fácil.

- Estou bêbada, me leva pra casa?

- posso te dar uma carona no taxi.

Melinda avisou Artemis que ia sair, deu um ultimo teco no banheiro e foi , no taxi ela insistiu, passou a mão pela perna, beijou o pescoço, sussurrou obcenidades, ele ria, não cedeu, quando chegaram na casa de Melinda ela disse que era pra ele subir prometia que não ia fazer nada, ele riu, conhecia essa frase, na verdade ele adorava putinhas, gostava que gostassem de sexo, era o caso da ex-mulher e quase toda a relação deles tinha sido baseada em que até um determinado ponto da relação ela apreciava uma boa trepada, Melinda era uma grande apreciadora de orgasmos, principalmente os múltiplos, ele subiu, sentou na sala, colocou um CD do Muddy Waters, ficou na verdade tentado a comê-la quando sentiu um cheiro de sabonete que vinha do banheiro, ela veio de toalha, ele estava sentado no sofá, ela sentou em cima dele e enfoiu a língua na orelha dele, ele puxou a toalha, beijou os peitos fartos, sentou ela virada de costas e bateu uma pra ela no rítmo de uma música dos Stones, Melinda, ficou louca, pedia pra ele meter, e mesmo com a dificuldade por causa de todo o pó ele fez ela gozar, sem tirar a roupa, sem deixar ela pegar no pau dele.

- Você queria um orgasmo, tai, boa noite, disse ele beijando ela na testa com a boca aberta no sofá. E apertando o pau ainda duro dentro da calça jeans

-Me come! Disse ela segurando a perna dele.

Ele foi até o banheiro, bateu uma punheta e voltou já indo em direção a saída

- Vou te dizer uma coisa, eu achei que não gostava mais de mulheres como você, mas eu adoro...

- Então me come! Disse ela se pondo de joelho e tentando tirar a camisa dele, ele se afastando.

- Você não me quer, quer só gozar, já dei o que você queria, podemos ser amigos, tenho seu telefone.

- Se eu for sua amiga você me come?

- Hum... sem promessas

- Faz de novo, aquilo com os dedos, por favor.

-Tchau Melissa.

Ela não corrigiu, estava acostumada, ficou realmente sentida, mas era verdade, ela só queria um orgasmo, pensou que ele tinha um carrão e estava em forma. A depressão pós pó e a velha ressaca moral bateram juntas, pra que caralho eu fiquei pedindo pra esse filho da puta me comer. Tomou um remédio pra dormir, comeu meia barra de chocolate e dormiu.

Ele tinha conversado com a galera da banda, mas todo mundo tava curtindo, e não conseguiu marcar nada, pensou voltando pra casa que marcaria uma reunião, pensou também que faria uma personagem inspirada em Melinda, e que queria fuder, mas não ia mais gastar a energia sexual dele assim sem mais nem menos, lembrou eu faltava a ultima erva que ainda precisava pra completar o ciclo, tinha ficado tão assustado com o efeito da quarta que tinha comido que não tomou o chá dos cogumelos, mas precisava tomar, qaueria concluir o ciclo, no fundo ainda não se sentia preparado para a experiência e mais do que isso, não queria fazer aquilo sozinho, só tinha mais uma semana para tomar o chá, ficou pensando em convidar o filho, ou quem sabe Tiago, mas desistiu, lamentou de novo não ter uma namorada, e riu da vontade que passou pela sua cabeça de chamar Melinda, achava que talvez, ela entendesse.


Foi pra casa dormiu e sonhou que estava comendo uma mulher de quatro e Melind aparecia, ele interrompia a trepada com a sensação de traição, quando acordou não entendeu o sonho, deixou pra lá, precisava colocar um anúncio no jornal, procurou a caixa do tio avô e não encontrou, a empregada devia ter guardado, ela só viria na segunda, tinha muitas coisas pra fazer.

9.Tereza acordou com o telefone tocando, era Melinda, amiga e ai? Vamos correr na orla?

-hã? Tá cheirada ainda?

- hehehehehe, só um restinho de ontem, acabou já mas eu queria correr na orla, tenho que ir buscar meu carro que deixei no estacionamento da boate ontem.

- O que aconteceu?

-Conheci um cara gostoso pra caralho!

-Outro?

-Não, esse é gostoso pra caralho mesmo, e olha que ele nem me comeu assim no sentido penetrativo.

-Hum... to com preguiça de existir desde quinta, ainda não passou!

- Toma um rivotril

- Ai Melinda, vai pegar seu carro, passa no mercado, traz um pote de sorvete napolitano e batata frita pra mim please.

- Larica né miga?

- Ainda não, mas quando você chegar eu já vou estar, preciso terminar uns relatórios, colocar a roupa na máquina, lavar o filtro, podar as plantas e tentar dar banho na gata.

- Ai que programão, vou arrumar as coisas e vou prai, me espera.

- Ela voltou a dormir, acordou, bateu uma siririca pensando numa suruba em um navio de cruzeiro, colocou a roupa na máquina, fumou um fininho, colocou um DVD dos Stones, deu muitos suspiros, não sabia o que era, podia se auto-diagnosticar em depressão, mas não tinha todos os sintomas, ela queria alguma coisa que não estava na superfície do seu pensamento, o que seria? Ela não sabia, e aquilo estava lhe deixando muito angustiada

10. Esse é um romance de ficção, com ênfase no cotidiano, na repetição dos hábitos e no Deja-vu da realidade, por que todo romance real nos quais se baseiam os romances de ficção, acontecem na realidade e nunca se saberá que sequencia mística dos fatos nos encaminha para o momento inicial de uma grande paixão. O amor é aquilo que fica, que faz com que se sobreviver a perda da emoção que a previsão cotidiana gera. Amar é curtir o previsível, mas a paixão vive da aventura da reinvenção constante do afeto, fazer do dia-a-dia uma surpresa de beleza e sabor.

Paixão é flor, amor é árvore.

Melinda foi na Boate, pegou o carro, sentiu um certo enjoo, ressacas, passou no supermercado, comprou coca- cola, malboro, sorvete, um pacote de camisinha, uma garrafa de vinho, capuccino e um pacote de canudinhos.

Chegou na casa de Tereza e encontrou a amiga toda molhada e arranhada no braço.

- Os gatos não se limpam sozinhos?

-Tem que dar banho de vez enquanto.

-hum... conseguiu?

- Mais ou menos, deveria existir um lava gatos.

- Tem o pet-shop.

- Trouxe meu sorvete?

-Trouxe várias coisas.

-Ai, Tereza preciso de terapia.

-Que foi?

-Essa coisa mal resolvida com o sexo.

-Melinda você é a pessoa mais bem resolvida com sexo que eu conheço.

-Nada disso, essa minha tranquilidade é pura resignação.

-Você quer um namorado?

- Talvez.

- Eu quero?

- hã?

- Eu achava que tava meio deprê por causa de sexo, mas eu quero um namorado!

- Pois é , acho que já tivemos essa conversa e concluímos que o problema são os homens, e não nós.

- Cara tem que ter pelo menos duas criaturas no mundo que possam entender a gente.

- Amiga não estamos falando de criaturas, se fosse criaturas a gente arrumava uma bicha, ou podíamos casar uma com a outra, estamos falando de machos heterossexuais, ou até bis já tava bom, eu sinceramente já pensei em desistir deles, arrumar uma mulher e ficar tranquila.

- Tranquila?

- Poxa o cara que eu quase comi ontem era demais, carrão, tipo quase cinquenta, delicioso, daquele jeito.

- Quase comeu? brochada na seqüência?

riram.

- Não ele não quis, sabe aquele tipo que faz a linha não sou desses?

- Sei, quero um assim, que não coma vacas como você.

Melinda pegou a gata ainda molhada do chão e disse, arranhou ela né lindinha? ela merece, ela merece, foi pra cozinha fez um capuccino, Tereza foi tomar banho, voltou com o computador.

-Tenho que terminar o relatório, vem cá, cadê a bicha?

- Não faço idéia, vou ligar pra ela.

- Tá onde?/vem pra cá/nada demais/ tem/fez o que ontem?/ que legal!!!!!/tá pode vir./bj.

-Fez o que?

-Pegou um cara tá saindo do ap dele vai vir pra cá.

-Preciso terminar o relatório, saco.

-Fuma um.

-Boa.

Fumaram até Artemis chegar, almoçaram lazanha e coca-cola.

contaram da balada, enquanto Melinda retocava a sobrancelha e fazia as unhas, Tereza quase terminou o relatório e se despediram pra encarar a segunda feira.

Ele acordou decidido a resolver algumas coisas do filme, ia selecionar os atores pessoalmente, precisava revisar o roteiro, encontrar alguém mais experiente, mas tinha decidido que ia errar sozinho, não queria aqueles caras pernósticos que acham que sacam de cinema dando pitaco no filme dele, no máximo uns cinegrafistas experientes, um bom diretor de arte, de preferência novo no mercado, isso também era uma coi9sa que tinha resolvido, equipe de iniciantes competentes, justamente pra evitar aqueles ataques de eu sei o que estou fazendo que os mais antigos no mercado tinham, ele queria pessoas que não soubessem muito bem o que estavam fazendo.

Deixou um recado pra empregada que deixasse a caixa no seu quarto e foi colocar anúncios no jornal, procurou uma sala pra alugar onde faria a seleção da equipe, recebeu uma ligação de Thiago chamando ele pra substituir o baterista naquela segunda por que ele estava doente, aceitou, escolheu a sala ligou pra Sara e pediu que ela resolvesse a burocracia do aluguel e mandasse mobiliar. Foi numa loja de equipamentos com uma lista que tinha feito na madrugada e comprou algumas coisas que ia precisar.

- O senhor gostaria de ver umas gruas?

Ele riu, nunca pensou que compraria uma grua e já se imaginava lá em cima gritando, eram muito caras ele achava melhor alugar, provavelmente não usaria muito, nunca gostou de esbanjar e se sentia esbanjando comprando todas aquelas coisas, pra fazer um filmeco que provavelmente não seria assistido em lugar nenhum.

Não tava nem ai, tinha um sonho e ia levá-lo a diante. Foi encontrar com Thiago pra ensaiar pra de noite.

Chegou no bar de motoqueiros e encontrou com a galera, Thiago era o vocalista, além dele tinha Spike na guitarra e Tundercat no baixo. Já estavam todos lá, rindo e se divertindo com alguns beques acesos, ficaram muito felizes de encontrar com ele, o repertório não tinha mudado muito, de modo que ele não teve tanta dificuldade quanto imaginava, o mesmo de sempre, Bad Religion,Rise Against , NOFX, Pennywise, Millencolin, Face to Face, Lagwagon, e o The Vandals que gerou um certo problema ,por que era uma banda de punk rock que ele não curtia e não sabia tocar.

-Esses caras são uns palhaços!!!!

- Que nada os caras são irreverentes. –disse Spike

- Eu chamo de palhaçada, desde quando vocês tão tocando Vandals?

Thiago pegou ele pelo ombro e disse:

-Sei que isso vai te decepcionar, mas desde que você saiu sempre quisemos tocar , mas sabemos que não é sua praia , então quando você saiu nós colocamos no repertório!- disse dando tapinhas na costa do amigo.

-Seus traidores!!!!!

Caíram na gargalhada e ensaiaram uma só, com muita resistência.

Ensaiaram duas horas, Bianor sentindo-se realmente vivo de experimentar aquela sensação, de tocar de estravasar nas baquetas, era como fazer ginástica,lembrava que tinha sido viciado naquela endofinatoda,ficaram todos muito satisfeitos com o ensaio, Bianor quis saber se o outro baterista era tão bom quanto ele, todos se olharam e foi Tundercat que respondeu, o cara é ótimo e sabe o que mais, ele adora o The Vandals. Riram muito com toda explicação de Bianor de por que a banda era ruim, foram comer alguma coisa, depois do almoço e da atualização de todas as novidades ele seguiu com Thiago.

- Cara quero sua ajuda nessa coisa do filme, preciso de alguém pra me ajudar e pensei em você.

- Sério? Que bom, ando meio sem grana e tô precisando de um trampo legal, mas o que eu tenho que fazer?

- Quero sua ajuda em algumas coisas, por enquanto queria te mostrar o roteiro que ainda não mostrei pra ninguém e que você me ajude a escolher a equipe, dos atores aos cinegrafistas.

-Ah, que bom, posso ajudar com isso, sobre o que é o seu filme?

-Engraçado que você é a primeira pessoa que me pergunta isso, é sobre um cara que nunca viveu um amor e tenta descobrir como é.

- Uma coisa autobiográfica né - disse as gargalhadas.

-Pois é mas não tem graça cara, eu quero isso nem que seja na ficção, quero viver isso de alguma forma.

-Eu achava mais fácil você encontrar uma namorada legal e se jogar, curtir uma paixão, viver um grande amor, ia dar menos trabalho e sairia mais barato.

- Pois eu lhe digo, que é mais fácil e mais barato fazer um filme, quem sabe se vivendo isso em fantasia eu não descubro algo arrabatador.

- Falando nisso, vai precisar de quantas gostosas pra fazer esse filme, quero selecionar elas pessoalmente.

- Olha só, quero te convidar, pra ir num sítio que eu herdei e ainda não fui lá, tem também um cogumelo que já tá em tempo de tomar o chá, lá a gente pode ver essa coisa do roteiro e quem sabe se você se comportar a gente dobra o numero de gostosas do filme, topas?

- Quando?

- Posso qualquer hora!

-Já sou seu contratado?

-já!

- Então também posso qualquer hora.

- Nesse fim de semana?

-Fechado.

Se despediram e Bianor foi pra casa, quando chegou lá, encontrou a caixa do tio-avô em cima da mesa.

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